A profissionalização das empresas rurais familiares

Por Camila Oliveira e Charles Daneberg
Foto: Ascom Safras & Cifras
Há muito se fala na importância do Agronegócio para a economia brasileira. O setor é responsável por uma grande fatia do PIB, absorção de empregos diretos e indiretos, além de ser um dos únicos a apresentar crescimento em meio à crise. O produtor, por sua vez, protagonista dessa história, faz o trabalho diário sem saber como estará o preço no dia seguinte, se vale ou não a pena comprar os insumos antecipadamente, se armazena ou vende seu estoque, além de outras decisões que refletem no resultado da empresa ao final de cada safra.

Durante muito tempo o produtor rural se baseou na experiência adquirida com a atividade ao longo dos anos para gerir o seu negócio e alcançar os melhores resultados. No entanto, não há dúvidas de que, atualmente não é mais possível gerir um empreendimento rural baseando-se apenas na intuição e experiência de épocas passadas, pois hoje as mudanças nos cenários econômico e político são constantes. O mercado, devido à globalização, se tornou extremamente dinâmico, variáveis que na maioria das vezes não são controladas pelos gestores dos negócios podem influenciar o mercado de modo a determinar se uma atividade existente dentro da propriedade será viável ou não.

Diante das mudanças ocorridas nos últimos anos, gerenciar e administrar uma empresa agropecuária se tornaram atividades muito mais complexas e minuciosas, pequenas decisões podem ser determinantes para uma propriedade alcançar ou não o resultado esperado ao final do ciclo produtivo. Com isso, percebe-se a importância de aliar uma gestão baseada em indicadores financeiros e econômicos, que possibilitem decisões assertivas e estratégicas para o negócio, à experiência que o produtor adquiriu ao longo dos anos atuando na área.

É importante salientar que antes de se chegar aos indicadores que auxiliarão na gestão da empresa, é preciso percorrer um longo caminho de adequação, avaliar se as informações estão sendo levantadas no dia a dia da propriedade e se elas são suficientes para a construção de um planejamento estratégico. Manter o controle das informações gerenciais em planilhas digitais ou em softwares é extremamente importante, mas também é muito importante focar em controlar apenas as informações realmente necessárias e que possam gerar de fato embasamento à tomada de decisão, controlar informações em excesso e de forma demasiada também pode ser um inimigo da boa gestão.

Um dos objetivos do controle gerencial é entregar aos gestores, de forma simples e efetiva, dados relacionados ao custo e ao retorno do investimento realizado em cada atividade da propriedade, além de um histórico dos resultados obtidos ao longo dos anos para proporcionar uma análise do andamento da empresa ao longo do tempo.

Além da gestão dos custos e análise dos resultados das atividades, o controle gerencial auxilia no acompanhamento e planejamento do caixa da empresa, o que na atividade agropecuária é muito importante em função de sua sazonalidade. As variações de preços podem fazer negócios que não possuem um bom planejamento financeiro se tornarem reféns do mercado, pois a falta de caixa em momentos específicos acaba impossibilitando o produtor de escolher o melhor momento para realizar suas comercializações e isso pode afetar diretamente o retorno financeiro das atividades desempenhadas.

Pensando nesta evolução da gestão das empresas rurais que se mostra tão necessária, uma das estratégias que pode ser adotada e que ultimamente tem se destacado muito em função dos bons resultados que gera tanto para o negócio como para a família empresária, é a Governança, um modelo avançado de gestão, cujas ferramentas, se aplicadas corretamente, organizam o empreendimento rural de fato como uma empresa e fazem com que haja um bom relacionamento familiar, gerando a continuidade da empresa na geração atual e nas próximas gerações. A governança tem sua base fundamentada sobre quatro pilares: Comunicação, Transparência, Profissionalização e Apresentação de Resultados, sendo que a adoção e aplicação dos princípios propostos é imprescindível para o bom andamento do negócio rural familiar.

Implantar a Governança obrigatoriamente passa por uma etapa inicial em que é necessário conhecer e entender ao máximo as características e peculiaridades de cada núcleo familiar envolvido no processo, pois cada família possui características únicas que precisam ser analisadas e levadas em consideração no procedimento de implantação desse modelo de gestão. Realizado o levantamento de todas as informações necessárias para a adequação do projeto à realidade da família, inicia-se a implantação da Governança, que se dá através de reuniões realizadas entre a família, sócios do negócio e profissionais qualificados, onde são abordadas questões essenciais que geram o desenvolvimento necessário para a profissionalização do negócio familiar.

Um instrumento muito utilizado quando se implanta a Governança nas empresas rurais é o Protocolo Familiar, pois, além de abordar inúmeras combinações acertadas entre os envolvidos, trata-se de um instrumento que desenvolve a cultura empresarial baseada nos quatro pilares da Governança. Esse instrumento foca, inicialmente, na profissionalização, envolvendo diversas áreas da empresa rural, definindo combinações relacionadas à processos e pessoas, estabelecendo funções, responsabilidades e remunerações, implantando algumas práticas de controle gerencial e apresentação de resultados anuais, definindo alguns parâmetros para Distribuição de Resultados, Reinvestimento e Fundo de Reserva, além de regrar de forma saudável e eficaz algumas questões relacionadas à comunicação entre as partes envolvidas.

É possível afirmar, através da experiência que a Safras & Cifras possui atuando há quase 30 anos exclusivamente no Agronegócio Brasileiro, que a implementação da Governança nas empresas rurais familiares é uma das formas mais eficazes de gerar a continuidade e perpetuação dos negócios nas mãos da família por gerações, pois além de gerar uma enorme evolução na gestão administrativa da empresa, desenvolve o alinhamento dos objetivos e propósitos das pessoas, trazendo de fato a profissionalização do negócio através da transparência e da comunicação.

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